Sombra Amiga*
Guilherme de Almeida
Não pude deixar de pensar nesse “John Doe” (1) — nesse Homem Comum — que está animando a tela do Art Palácio, quando, na noitinha chuvosa de anteontem, olhei em torno de mim, no ônibus abarrotado, macio e morno.O homem, que eu tinha a meu lado, era vago como uma capa de borracha e simpático como um desconhecido.— O sr., naturalmente, não me conhece. Ninguém me conhece. E isso é justamente o meu orgulho e a minha melhor felicidade. Sabe quem sou eu? Não sabe. Ninguém sabe. No entanto, eu estou todos os dias em todos os jornais. Eu sou aquele "Etc.” cômodo e fácil, que é o remate comum, o exit smiling de todas as notícias de reuniões sociais, ajuntamentos representativos em gares, aeroportos, enterros... “Notamos a presença dos srs. A., B., C., D., E., F. etc.”... Eu sou esse "etc.” Eu sou aquele transeunte de que falam muito confortavelmente as reportagens urbanas: "Um transeunte deu o alarme e o Corpo de Bombeiros acorreu prontamente”:.. Eu sou aquele “popular" que socorre sempre cardíacos e atropelados: "Transportada por um popular à farmácia mais próxima, a vítima recebeu os primeiros curativos”... Eu sou o homem coletivo. Não há, na vida, melhor situação do que a minha. 0 sr. é um homem na multidão: eu sou a multidão num homem. Todo o mundo me deve uma atenção, um serviço; e eu não dou a ninguém o trabalho ou a honra de me agradecer. Toda gente me incomoda, e eu não incomodo ninguém...O ônibus parou numa esquina anônima. O homem saiu. Saiu todo banhado por um meu longo olhar; que era de gratidão, de ternura, de admiração e de inveja.FOLHA DA MANHÃ, 21-02-1943(1) Meet John Doe, filme dirigido por Frank Capra, é de 1941. Uma tradução idiomática do título seria "Venha Conhecer Zé da Silva". Lançado no Brasil como Adorável vagabundo, é a história de um zé-ninguém ingênuo (interpretado por Gary Cooper) que, manipulado por uma repórter (Barbara Stanwyck) e um político corrupto (Edward Arnold), personifica o homem comum numa falsa campanha nacional de caridade.
*O texto acima, extraído do livro “Figuras do Brasil – 80 autores em 80 anos de Folha”, Publifolha – São Paulo, 2001, pág. 58, alude ao "Homem da Multidão”, de Edgar Allan Poe — o primeiro e até hoje o maior anti-herói da vida nas grandes cidades.
Obs: mais direto impossível.