segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Prosa notívaga


Quando uma estrela cai
Nada sobressai e zás!
Pronto, ei-lo: haicai.


domingo, 5 de outubro de 2008

KRONiKA

Cada autor costuma ter uma teoria muito particular sobre a origem da própria inspiração. Normalmente a explicação vem disfarçada de discurso humilde, pseudo-simplista mesmo. Um tipo assim “Eu só sento e escrevo” ou , algebricamente, “É 90% transpiração e o resto inspiração“. É esse ar de desdém sobre o escrever que causa o efeito contrário: é ainda mais angustiante pra quem ouve pensar que alguém que se expresse tão facilmente em folhas e mais folhas de papel não necessite de um pingo de sopro do sobrenatural, de um clique, um insight, um quais-quais-quais além de talento inato. Não pode! Pois é, não só não pode, como não deve. Já pensou num Carlos Drummond sem a pedra no meio do caminho que de fato o incomodasse? Já pensou em um Manoel de Barros que visualizasse o Pantanal no google maps? Ou em um João Ubaldo sem a notícia de jornal? Num Edgar Allan Poe sem o corvo? Não orna. Todo escritor faz peregrinação diária à sua Meca particular único motivo suficiente para tirá-lo do ócio ululante, lugar-comum de poetas, cronistas e romancistas . A técnica, a releitura da própria obra já finalizada após uma ou mais noites de gaveta, o ritmo, a coerência, coesão, inovação, enfim, o polimento de uma obra literária é fundamental. Agora, tenta vender tutu sem tempero pra mineiro, pra ver o que é bom. Eu, por exemplo, tenho três coisas que muito me inspiram: a noite, a insônia e a fonte do Word. Lucida Handwriting é minha parceira de hoje. Parece feito à mão... e com uma lucidez insone. Pois bem, “digamos que estou como o insone que achou o lugar certo da almofada e vai poder, enfim, adormecer”[1]. Boa noite.

[1] Saramago, José. O ano da morte de Ricardo Reis. P. 94.

sábado, 6 de setembro de 2008

Metalinguagem

Explicando: dada a exorbitante participação dos leitores do blog, resovi ceder o espaço intitulado Mural para os interessados em participar como colaboradores (nem é porque ng respondeu o desafio...).

O texto inaugural é "O português e a matemática". Trata-se de um exercício de metalingüística que expõe a problemática da escrita: a partir de que ponto o trabalho com a palavra deve ser considerado literário? E o que faz um texto despertar a vontade da leitura: o enredo ou o trabalho com a palavra? Infelizmente muitas vezes as coisas não andam juntas, e textos bem escritos não tem o necessário apelo popular ou, por outro lado, histórias fabulosas não têm o acompanhamento das palavras mais adequadas à sua narração. Quem discordar da relação de "o português e a matemática" com essas questões ao menos aprecie a parábola.

Quem se animar e tiver interesse, escreva sua crônica ou conto e envie para brunokronka@gmail.com.

Mural

O português e a matemática
por André Doreto*
Travessão era um sujeito simples, composto de traços fortes e virtudes plurais, com uma personalidade singular. Veio de Portugal à procura de emprego, algo que tornasse seu futuro melhor do que seu triste presente. Chegando aqui, encontrou um trabalho duro. Diariamente passava horas no coletivo com aquele uniforme quente e ainda tinha de se subordinar às terríveis ordens de seu inescrupuloso patrão, um sujeito determinado a infernizar sua vida. O português teve um pretérito imperfeito. Faziam vários trocadilhos com seu nome, utilizando um parônimo muito desagradável, como se ele fosse um cara comum-de-dois-gêneros
subtração, formada em Matemática, era uma menina racional. Católica fervorosa, visitava semanalmente a igreja matriz da cidade e pagava o dízimo periodicamente. Seu corpo, nada retilíneo. Pelo contrário. Era possuidora de exuberantes curvas e vestia-se com combinações deveras sedutoras.
O português conheceu inúmeros primos da matemática, pois faziam academia juntos. Na oportunidade, Travessão fazia flexão quando involuntariamente Adição, primo de Subtração, esbarrou nele. Enfim tornaram-se amigos e se falavam regularmente. Quando menos se esperava, o português estava namorando Subtração. Um casal tão diferente: ela, menor que ele; ele possessivo, sempre soltava o verbo quando ela tinha um comportamento irracional. Apesar das desavenças, o turbulento namoro evoluiu para um inacreditável casamento.
Os irmãos gêmeos de Travessão, os Dois-pontos, acreditavam que seu futuro seria defectivo. O pai da matemática também era contra. Sempre soube que a probabilidade de o casamento dar errado era infinita, pois sua filha era sistemática e Travessão pertencia a outra área, que nunca se enquadraria em seus planos.
Certa feita, Subtração encontrou Travessão com Vírgula, sua amiga de infância. Viviam juntas na escola, formando um conjunto inseparável Isso foi determinante para que a matemática colocasse um ponto-final no relacionamento. Sabia que dali para frente os problemas só multiplicariam.
Tentaram dividir os bens para definir o que antes estava indefinido. Incalculáveis eram os graus das brigas que travaram na Justiça. Cada um enxergava as coisas por seu ângulo. Um não concordava com o outro. Faziam orações para que os problemas chegassem a um acordo. Ao final, as propriedades da Subtração ficaram com ela e Travessão saiu apenas com um velho acento que havia carregado consigo.
Nunca mais se falaram, nem ao menos se encontraram. Por isso, até hoje, quem gosta do português não gosta da matemática, e vice-versa.
*André Doreto é acadêmico de Direito da UFMS, apaixonado por português e matemática igualmente, e originalmente tinha grifado todas as palavras relativas às duas disciplinas, eu é que preferi parar no 2º § por preguiça mesmo....

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

DESAFIO!

Aos navegantes, obrigado.

Mais de 400 visitas (a maioria da minha mãe).

Por muitas partes do Brasil (Guarujá, Uberaba, Rondonópolis, Porto Velho, Ananindeua - todos por engano...).

Também fora dele (EUA, Nova Zelândia - não sabia que eu tinha família por lá também...ou seriam parentes do Vítor?).

Vocês fazem este blog.

E pra provar isso, lanço um desafio: a partir de hoje este blog está aberto a sugestões sobre novos capítulos: idéias de temas, de estilo, de linguagem, de forma, de novos personagens, de enredo, etc...

O autor das melhores idéias sugeridas nos comentários dos posts será premiado (?) com a utilização de sua proposta pelos autores e acesso ao blog, por um mês, para criar posts como colaborador!

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

O popular (clica)


Igualmente recomendável e relevante para a reflexão do último capítulo deste blog é a leitura de "O popular" , do gênio da crônica Luís Fernando Veríssimo.



Seria o nosso herói, na verdade, um anti-herói? Seria ele mais um popular? Seria ele real ou produto da invenção midiática? Por que eu faço tantas perguntas sem sentido? Essa monografia tá acabando comigo...



Tchau. Vou ver as olim piadas. Valeu, COB! Sempre tirando um peso das costas dos (anti-)heróis brasileros...



Et cetera

Sombra Amiga*
Guilherme de Almeida
Não pude deixar de pensar nesse “John Doe” (1) — nesse Homem Comum — que está animando a tela do Art Palácio, quando, na noitinha chuvosa de anteontem, olhei em torno de mim, no ônibus abarrotado, macio e morno.O homem, que eu tinha a meu lado, era vago como uma capa de borracha e simpático como um desconhecido.— O sr., naturalmente, não me conhece. Ninguém me conhece. E isso é justamente o meu orgulho e a minha melhor felicidade. Sabe quem sou eu? Não sabe. Ninguém sabe. No entanto, eu estou todos os dias em todos os jornais. Eu sou aquele "Etc.” cômodo e fácil, que é o remate comum, o exit smiling de todas as notícias de reuniões sociais, ajuntamentos representativos em gares, aeroportos, enterros... “Notamos a presença dos srs. A., B., C., D., E., F. etc.”... Eu sou esse "etc.” Eu sou aquele transeunte de que falam muito confortavelmente as reportagens urbanas: "Um transeunte deu o alarme e o Corpo de Bombeiros acorreu prontamente”:.. Eu sou aquele “popular" que socorre sempre cardíacos e atropelados: "Transportada por um popular à farmácia mais próxima, a vítima recebeu os primeiros curativos”... Eu sou o homem coletivo. Não há, na vida, melhor situação do que a minha. 0 sr. é um homem na multidão: eu sou a multidão num homem. Todo o mundo me deve uma atenção, um serviço; e eu não dou a ninguém o trabalho ou a honra de me agradecer. Toda gente me incomoda, e eu não incomodo ninguém...O ônibus parou numa esquina anônima. O homem saiu. Saiu todo banhado por um meu longo olhar; que era de gratidão, de ternura, de admiração e de inveja.FOLHA DA MANHÃ, 21-02-1943(1) Meet John Doe, filme dirigido por Frank Capra, é de 1941. Uma tradução idiomática do título seria "Venha Conhecer Zé da Silva". Lançado no Brasil como Adorável vagabundo, é a história de um zé-ninguém ingênuo (interpretado por Gary Cooper) que, manipulado por uma repórter (Barbara Stanwyck) e um político corrupto (Edward Arnold), personifica o homem comum numa falsa campanha nacional de caridade.
*O texto acima, extraído do livro “Figuras do Brasil – 80 autores em 80 anos de Folha”, Publifolha – São Paulo, 2001, pág. 58, alude ao "Homem da Multidão”, de Edgar Allan Poe — o primeiro e até hoje o maior anti-herói da vida nas grandes cidades.
Obs: mais direto impossível.

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Fala, Gullar:

Poema sujo (trechinho)

(...) Corpo meu corpo corpo
que tem um nariz assim uma boca
dois olhos
e um certo jeito de sorrir
de falar
que minha mãe identifica como sendo de seu filho
que meu filho identifica
como sendo de seu pai
corpo que se pára de funcionar provoca
um grave acontecimento na família:
sem ele não há José Ribamar Ferreira
não há Ferreira Gullar
e muitas pequenas coisas acontecidas no planeta
estarão esquecidas para sempre
corpo-facho corpo-fátuo corpo-fato (...)

Ferreira Gullar. Obs: comentário não-proposital do maior poeta concretista brasileiro sobre o corpo nosso de cada dia -ou sua ausência - , que o último capítulo do blog tratou. Esse poema é sua obra-prima que inda vai dar muito pano pra manga. E vocês verão que até palavrão é poético. (Captem minha pretensão subliminar...).

quinta-feira, 31 de julho de 2008

Capítulo 7

Sobre pêlos, olhares e correria.
por Bruno Kronka.
Agora corria, nu em pêlo. Pelo visto, aliás, ninguém o percebia. Percebiam apenas a situação dita real: seu corpo carregado sob o som da sirene e o escândalo visual do giroflex piscando. Pisca-piscava, ele, os olhos sem parar, sem pensar, sem sentir a mijada que lhe dava um “filhinho da puta!” de um cachorrinho. Perro de mierda! Mas bostas cagadas não voltam ao cu, pensou. Pensativo, notava: o desgraçadinho tinha levantado a perna pra fazer o serviço amarelo; e mais: encarava-o, sentado; foi a primeira vez que alguém (ou algum) deu-lhe atenção depois que o evento morte surrupiou-lhe parte da vida preservando-lhe, entretanto, nesse “formol da alma”, ou seja lá qual for o nome desse estado de existência em que se encontra. Encontra-se na rua principal da cidade, com carros atravessando as avenidas no mesmo célere ritmo de sempre, em meio a desconhecidos passos no mesmo ligeiro compasso que a pressa exigia. Pelo menos essa era sua exegese sobre as ruas daquela cidade de parcos costumes. Acostumou-se, assim, a ver como rotina pouco ou nenhum olhar mirando sua costumeiramente embaçada retina embriagada, que jamais refletiu tamanha atenção voltada para si. Ensimesmou-se com a angustiante novidade que despertava aquela criaturinha peluda, sua futura companhia. Companhia para quê? Aonde ir, se já ido? E afobou-se. Logo ele, que não tinha a menor pressa pra nada; serenidade baiana... E questionou-se (logo ele, que sempre teve certeza sobre a única dúvida que todos têm — sobre quando morreremos): conseguiria exercer alguma influência sobre o mundo em que ainda habitava, mesmo depois de morto? Nem ele sabia se aquela era a resposta sobre a existência de vida pós-morte. Nem se todos passavam por esse estágio de existência ou atingiam a consciência que ele estava experimentando. Mas sabia que era hora de fazer tudo quanto se absteve de fazer em sua passagem corporal por ali. Até onde o Tempo permitisse; por isso correria contra o tempo. Faria tudo o que pudesse, antes de um piscar de olhos. Sem ressentimentos nem pudor. Mas não sozinho. Nem seco.

sábado, 5 de julho de 2008

Oportunas citações

"Vai sem ir, corpo, traz o aroma que embriaga,
traz o mel que hipnotiza,
traz a luz que não se apaga,
traz o sopro que eterniza.
Espalha raiz macerada por cima de minha esteira,
deixa escorrer o tempo o tempo que ele queira.
Vai caminhando leve
por este vale encantado,
antes que a neve chegue,
vai corpo, sem ir, com cuidado".
("Esboço de Eva", fragmento, por Lenilde Freitas).